"Aconchegou-se no metrô, fechando os olhos para as marcas de suor embaixo das axilas dos homens feios e sujos, para as barrigas grandes aparecendo abaixo das camisetas curtas e velhas das mulheres: não era um deles.
As janelas fechadas criavam um clima de inferno tropical em pleno inverno, era um dia de cão, e como tal seria tratado; ela levantaria do banco cor de merda do metrô paulistano, deixando para trás uma marca molhada do vão entre as suas pernas levemente molhada no assento. Era aquela marca um vestígio vergonhoso do fato de estar vivendo entre aqueles animais, de estar suando e respirando entre eles, uma constatação assustadora do fato de ser, mesmo que só nas porcarias da vida, próxima daquelas bestas assustadoras.
Sete da manhã, Oito da noite, três da Tarde ou meio dia, a sensação era sempre a mesma, o calor, o abafamento e a estufa infernal que existiam naquele subterrâneo não mudavam em razão da época ou da hora, era sempre a mesma imundice podre, a sujidade da existência pobre e periférica que pareciam crescer sempre que delas se reclamasse.
“O nojo, pensava, é o nojo que me difere deles. É o nojo dessas mulheres feias, desses homens fétidos, desses monstros subumanos, dessas crianças demoníacas e sujas que me afasta da não-vida dessa gente. Eu sei o que faço. Eu sei o que sou. Eu sei o que quero. Eles inexistem: Eu sou.”
Levantou para sair do vagão, tomando cuidado para não encostar-se a algo que pudesse provocar a ânsia que regurgitaria a vida limpa e bela que guardava dentro de si sobre aqueles ombros pesados e marcados dos homens e dos peitos murchos e acabados das mulheres. Vomitar a sua essência, feita de torrada, geléia e suco de laranja sobre a cabeça daquelas crianças que tomavam café com leite e pão seco.
Gorfaria seu desjejum aos pés mal calçados daqueles zumbis diários, como se aquele deslize fosse um pedido de perdão divino. Lavar, com seus fluídos, os pés apostólicos daquelas bestas demoníacas, enxugar a umidade que dela haveria saído com as páginas amarelas dos livros desbeiçados que carregava nos braços, seria essa a única forma de redimir aquela gente do pecado de ser miserável?"
Momento post-it: Em primeira mão, o primeiro capítulo do livro que um dia terminarei
Ouvindo Phanton Planet, Lonely Day: "... It´s gonna be a lonely, lonely, lonely, day... When you want it all to go away..."
Momento Post-it: Eu consertei linha teleFônicas hoje. Uma estagiária bombril, fato!
Estava Chovendo. Era óbvio.
São Paulo nas últimas semanas tem sido um misto de mármores do inferno e Dilúvio de Noé, com essas duas situações se alternando em períodos de mais ou menos 4 horas.
Só existem três situações em que chove: Aquelas que não podiam chover, as que seriam muito melhor nada se molhar e as que se chovesse, resultariam em Desastre.
Era óbvio que estava chovendo porque eu estava enfrentando o último tipo de situação; a de desastre iminente.
Atrasada, de sandália e carregando uma caixa de bombons de chocolate caríssimos para um procurador da república. O fato do ônibus ter parado ali, naquela passagem entre a paulista e a Dr. Arnaldo, fez com que eu nem notasse direito os grafites, os mendigos ou qualquer outra coisa. Estava irritada, com calor e com a paciência no limite.
Mudei de assento, para um lado onde a janela pudesse ficar aberta e eu não ficasse ensopada pelos pingos do tamanho de bolinhas de gude que batiam nas janelas como se quisesse quebrá-las. Sentei-me atrás de um senhor que, num olhar de relance, estava resmungando sozinho para si mesmo, sabe-se lá se da chuva, do trânsito ou do calor amazônico dentro do coletivo.
O Homem gesticulava firmemente e resmungava baixinho algo que eu não conseguia distinguir entre palavras e grunhidos.
Eu, bufando e reclamando pra mim mesma, me senti compreendida, abençoadamente compreendida, como se ele fosse solidário ao meu atraso, ao meu pé que ficaria molhado, ao meu mal-humor, à minha fome, à minha vontade de quebrar os vidros com os punhos e pular do ônibus para chutar a boca de Deus que tudo encharcava com aquela chuva insana.
Pensando na idiotice de chegar a Deus e dizer: “Por que só chove quando uso havaianas?”, a chuva amainou e eu consegui entender o que o homem resmungava: Ele cantarolava alguma coisa que meus parcos conhecimentos de música clássica classificaram como música de câmara.
Olhei para frente e foi aí que o homem, Deus, os chocolates gran-finos e os mendigos da passagem entre a Dr. Arnaldo e a Paulista explodiram dentro de mim, enquanto eu olhava para as mãos daquele homem feio e suado que grunhia à minha frente: no colo do homem, estavam partituras. O homem gesticulava para a janela como se tentasse reger a chuva, com olhos quase cerrados, soltando baixinho o som que supostamente sairia do controle de suas mãos.
Era pobre, estava suado e amarrotado, vestia roupas simples e gastas. Andava de ônibus na chuva, ficava em congestionamentos, em coletivos fedidos, mas era um maestro.
Eu a minha pobreza, eu e a minha falta de senso, de dinheiro, de comida, de tudo, eu e a minha falta! Eu, eu, eu, eu e a chuva que batia na janela que o homem transformava dentro dele em música que escorria no vidro, escorria pela lataria empoeirada do ônibus e caía no asfalto já cinza.
Saí do ônibus me sentindo desamparada, como se tivesse, por instantes, pairado acima daquela situação humilhante de suar dentro de um ônibus, para logo depois ser jogada, num mosh absurdo, em cima daquelas pessoas que se amarrotavam no corredor do coletivo.
O Homem não era um dos meus. E eu sabia disso.
Momento post-it: "Sometimes, there's so many beuty in the world, that I can't stand it"
Ouvindo Thievery Corporation, The time we lost our way: ...Hear my love where your heart colides...Gentle memories replace our tears
Ah, como é grave o adeus
O adeus de mãos tristes
De "não-te-amo-mais
E-ainda-bem-que-já-vais"
Os adeuses esbranquiçados
Por lágrimas posto que não de dor
Mas sim de Alívio
Ah, os adeuses aliviados
Que soltam os amantes traiçoeiros
Adeuses da cor-de-vergonha que só
o corno que adorna a testa do outro pode pintar
Ah, os adeuses alegres da troca de lençóis
Da troca de corpo, do escolher entre tu e ele
Ah, como adoro um adeus hipócrita
Lacrimoso e dolorido
Que só sente quem é trocada
Como um velho, brega e esfarrapado vestido.
Momento Post-it: Eu desisti dessa idéia de que quero que as aulas voltem. Estou com uma preguiça...
Um dos meus maiores problemas... é ser fofa.
Não importa quem seja: Marmanjos marombados, moçoilas de decotes e os cultos de óculos: todos sentem uma necessidade incrível de, ao me conhecer, apertar as minhas bochechas, falarem comigo como se eu fosse um filhote de poodle ou sorrir com um ar meio de "ooh" como se o meu olhar fosse algo parecido com o do gato de botas para os soldados; Um saco.
Sei que se eu tenho tanta gente que se importa comigo isso provavelmente vêem da fofice que chega 2km antes de mim em qualquer lugar que eu vou. Há mulheres que esbanjam uma sensualidade atraente, outras, que têm seios lindos. Há homens cujos narizes chegam primeiro nas salas de aula, ou são ogros absurdos, que nem é preciso falar "-oi" para saber.
A minha fofice é dessas: não é preciso ouvir a entonação da minha voz ou me ver sorrindo pra ter vontade de me colocar no colo.
A primeira coisa que pensam ao me conhecer é; Que simpática, que boazinha, que fofa, que querida!
Eu não sou! Eu sou um monstrinho de quase 20 anos, uma jovem mulher feminista, eu trabalho, eu estudo, eu falo espanhol!
Sei que as minhas bochechas são macias, que meus gestos são delicadinhos e desajeitados, e que quando fico sem graça fico rosada até o último fio de cabelo. Mas...É pedir demais pra não ser comparada a um bebê?
Quem não me conhece provavelmente vai achar que é pretensão, e que eu fiz um texto auto-elogiativo só para chamar atenção.
Mas,infelizmente caro leitor, não é. Se você duvida, me convide para sair. Vamos ver se você não muda de idéia.
Momento Post-it: Quero ir no teatro do Sesi semana que vem, alguém?
Ouvindo Cartola, Injúria: "não sei o que foi te derrubar, o castelo que eu fiz...em meu castelo era tão feliz"
Viro e reviro na cama em busca de uma posição que me permita repousar, de olhos abertos e fixos no armário de madeira suspenso acima do meu rosto, pelas longas horas que se arrastarão até que o sono chegue.
Passo quase três horas criando pequenos jogos comigo mesma: reconstruo os diálogos que tive durante o dia, corrigindo meus erros. Imagino cenas futuras, em que eu sempre sou bem sucedida. Tento recriar mentalmente coisas que só ouvi falar, e não faço a menor idéia do que sejam; coisas como os jardins suspensos da babilônia, ou framboesas. Faço listas idiotas, como " Cinco filmes que não valem a entrada do cinema" ou "Cinco músicas que lembram momentos embaraçosos da minha vida" ou pior " Cinco maneiras para falar não para a minha chefe".
Nada adianta: O travesseiro nunca está do jeito que quero, o pijama incomoda, e ainda o lençol sempre sai do lugar.
Amanhã, ao acordar, pisarei em cima de todos eles e me arrastarei, vestindo o que sobrar do pijama, até o banheiro, para olhar para o meu rosto e tentar me convencer que, novamente desaprendi a dormir.
Resumindo: Uma merda.
[b] Momento post-it: Crises de insônia são algo corriqueiro em minha vida, mas o problema é que eu nunca tenho insônia quando preciso. [/b]
Dizem que o outono é a estação da rinite, do morango e das inversões térmicas desesperadoramente rápidas.
Outono pra mim é a melhor estação do ano.
A única estação do ano que se pode tomar sorvete sem medo que ele derreta demais ou congele a sua boca, a melhor estação para piqueniques no Ibirapuera, a época perfeita para se andar por São Paulo, já que a cidade fica coberta de Ipês floridos em seus tons fortes e seus tapetes de pequenas flrozinhas no chão, é o tempo perfeito para ler de tarde, as tardes de outono são longas, modorrentas e frescas, com um vento gelado e um sol que aquece levemente a nossa pele, e brilha, brilha iluminando as folhas claras do papel.
Outono em São Paulo é sempre um mistério. Pode-se usar o armário inteiro num único dia, ou passar semanas de camiseta e shorts, só esperando pela mudança de temperatura. É entre Maio e Junho que todos mundo que mora aqui vira metereologista: "Esse vento pra lá é que vai chover", "Se tiver lua no céu e estrelas bem brilhantes de noite é que no dia seguinte vai ter sol", "Quando as nuvens estão assim é que vai ficar nublado amanhã", e outras bizarrices.
Mas o bom mesmo são os dias clássicos de outono:
Os dias em que o frio é grande, e, para sair da cama, só depois de três doses de coragem e uma de loucura; que você se agasalha, se entoca e se cobre de estofamentose mesmo assim passa frio o resto do dia... e que dia! Aqueles dias ensolarados, que o sol chega dói nos olhos. Que o vento passa assoviando e esfriando os pés, e o sol arde no rosto.
Minha mãe conta que eu nasci num dia desse.
Que ela passou frio a madrugada inteira na sala de parto, e quando eu nasci o sol já aparecendo. O sol mais frio que ela já viu. que tinha geado a noite, e que a grama do quintal tinha amanhecido coberta de cristaizinhos de gelo que sumiram tão magicamente como eles havia chegado, assim que o dia chegou por completo.
O outono é o sinal do meu aniversário, das mixiricas, das festas de São João e da inalação.
Esse ano, mais do que nunca, é o sinal de uma vida nova que caiu das folhas do ipê.
-Correndo por que, vaquinha? Vai encontrar um macho?
O grito soou altíssimo no meio da multidão que ia, como em qualquer outro dia, em peregrinação para o metrô lotado. A mulher a que a ofensa de dirigira parou e, por dois segundos, o mundo ficou em suspenso; Ninguém soube qual seria sua reação.
A dúvida durou pouco: A mulher, num único movimento, voou para cima do velho que havia dito tal absurdo, largando a enorme bolsa no chão e parecendo estar descalça, ao invés de estar encarapitada em um salto altíssimo.
-O quê!?- Disse ela, com um berro a pouco menos de cinco centímetros do rosto do ignorante- Repete, seu idiota, repete- continuou ela, de maneira insana.
Ninguém mais se movia, e, iniciou-se um burburinho de rumores das razões da discussão. Ouvia-se que era por que ela tinha pisado no pé dele, dizia-se que ela havia esbarrado no velho com a bolsa. A resposta veio mais rápida, cortando meus devaneios na forma de um berro que ecoou pelo vale do Anhangabaú:
-... Se você não ouviu as minhas desculpas, sinto muito. Mas eu pedi e não aceito esse desrespeito. Repita, Repita se você é homem...
-Vaquinha!- repetiu o homem em voz incerta, talvez por que a raiva da mulher era palpável até para mim, a alguns passos atrás do velho, e sua expressão de ódio era uma máscara para um rosto delicado.
Fui num átimo de segundo, e o tapa soou estralado. O barulho daquele tapa carregava a vergonha da ofensa, e toda a raiva da persistência do insulto. A mão dela continuava a descer, e demorou um pouco mais que o necessário para alguém segurá-la, e impedir que a agressão continuasse. Talvez todos em volta, assim como eu, desejassem ver aquela mulher acertá-lo no orgulho.
A turma do chega - disso entrou em ação e em pouco tempo os dois se perderam na multidão, um resmungando de um lado e outra com vergonha do outro. O som do tapa não. Esse continua no meu ouvido, porque o estralo foi o som do meu ego reconstruído de todos os desrespeitos que já passei por ser mulher.
Momento post it: Infelizmente, tudo que está aí é real, e para piorar, eu não estava assistindo: fui eu quem deu o tapa. Tropecei (em cima de uma bota linda de salto agulha nº8) em um idiota, e, pedi desculpas, correndo em seguida pra encontrar meu primo, que caminhava um pouco mais à frente. O resto é história. Quem me conhece sabe que e sou absolutamente incapaz disso... mas não pude me controlar. acho que está na hora de entrar pra terapia... ¬¬
Ouvindo marvin Gaye, I want you: "...I want you, but i want you to want me..."
Faz MUITO tempo que eu não posto por aqui.
A vontade de escrever continua, e eu, imaginariamente, construo textos que gostaria de dividir com as duas ou três pessoas que acessam o Maga do Id constantemente.
Mas, sabe... tem alguma coisa errada.
Minha vida parece novamente em suspenso: é quase como eu seu estivesse na eminência de algo fantástico, que ainda não sei o que é, e que pode mudar tudo em um piscar de olhos. É também uma sensação de incompletude, de vazio e de medo: do desconhecido, de dificuldades.
Sempre me sinto assim antes do meu aniversário, sabe como é, inferno astral.
Serve tanto para sofrer o que não sofri durante o ano e também para mudar o que tem que ser mudado.
Por enquanto, estamos fechados para reforma. Pode ser que poste amanhã, pode ser nunca mais.
Beijos e até logo,
Mariana
Momento post-it: Fique sossegado, eu continuo amando você. Não sei se é bom ou se é triste, mas continuo acordando mais feliz se sei que vamos nos ver. É o amor que não pára nunca, e que não importa se não te pertence. É minha a felicidade, é meu o prazer e também minha, só minha, a tristeza.
Foi Vinicius uma vez disse que a maior solidão é a de quem não ama... Então eu, meu doce, nunca estou sozinha.
Ouvindo, Samba da Benção, Vinicius: Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste...Qualquer coisa que sente saudade, Um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor...E para ser só perdão"
...A tensão súbita de te ver entrar, parando na minha frente eu, você; uma mesa a nos separar.
Te ter na minha frente, faísca acidental.
Minha perna encostando na tua, numa aceitação muda.
O calor nos lábios, o fogo na mente, eu e você; uma troca de insultos, de elogios, de cumprimentos.
Pega-me pela mão, me encosta e abusa do meu corpo, estupra o meu intelecto.
Morde meu lábio, assopra meu ego e massageia a minha volúpia, Sedução expressa.
Agarra-me , tua língua, minha língua a luta pela sobrevivência no esgrima do desejo.
Saliva invadindo a boca, sua voz invadindo meu ouvido, me lembrando que nem sempre eu sou minha, até que o ritmo indecifrável dos nossos corpos se estabeleça.
Tua mão descobre paragens extintas, minha mão te aperta junto ao peito, Explora meu corpo, conquista-me, exploda-me num Big-bang de...
-Estação Terminal Corinthians-Itaquera, solicitamos a todos que desembarquem nessa estação- Disse o condutor na sua voz de fim de dia.
Odeio meu Período Fértil, eu juro que odeio.
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Momento post-it: quem está acostumado a ler esse blog (acho que uns dois ou três gatos pingados) Já conhece esse texto. Ele nem está tão bom assim. Mas período fértil é tudo a mesma coisa.
Ouvindo Marvin Gaye (quer algo mais apropriado?), I want you: "...You know, when you're in love and your lover leaves you, And you've got nobody, the lonely hours over here
Não estou acostumada com a falta de palavras para expressar algo, não estou acostumada a não ter explicações.
Essa falta de como dizer têm me deixado muito clichê:
Me peguei falando por meio de metáforas batidas do tipo: "Foi como se fosse levasse uma parte de mim";
Prosopopéias do tipo: " A solidão invadiu tudo aqui dentro";
Hipérboles como:" Nunca mais vou gostar de ninguém".
E para falar a verdade... acho extremamente engraçado.
Livrar-se das coisas que passaram não é a coisa mais agradável de se fazer.
ALguém ia ter que fazer o trabalho sujo, em algum momento...
Talvez seja melhor parar por aqui. Já está ficando mais clichê que novela das seis.
Ouvindo, Moska, a Idade do céu: Calma ,Tudo está em calma , Deixe que o beijo dure ,Deixe que o tempo cure...
Momento post-it: Estava ouvindo essa música do Moska... e tive um súbito alumbramento: É uma adaptação da idad del cielo, do Jorge Drexler!
Quando era pequena, tinha a impressão que nunca teria o tamanho dos meus pais.
Eles pareciam tão grandes, inatingíveis e dignos de louvores que seriam, no meu imaginário, sempre altíssimos.
Com o passar do tempo, e o meu crescimento de alguns centímetros, eu comecei a fazer por mim mesmoa várias coisas que só seriam possíveis com a ajuda deles:
Abrir o registro do chuveiro, ler sem a ajuda deles, ligar a Tevê, alcançar as frutas em cima da mesa, conseguir colocar água num copo sem derrubar e mais um monte de pequenas conquistas que, na época, pareciam desafios insuperáveis.
Mas foi no dia em que consegui, sem a ajuda de ninguém, abrir um pão francês que eu percebi que mais cedo ou mais tarde seria como eles.
Minha família sempre teve a tradição de sentar-se a mesa não para almoçar ou jantar, mas sim para tomar café da manhã. Nesses cafés da manhã, quando éramos pequenas, meus pais realizavam o ato que eu considerava um marco adulto: Abrir um pão francês com uma faca afiada sem se cortarem. Eu, ao contrário, já havia desistido de tentar, muitos cortes depois.
Os meus pais, ao serem os únicos que poderiam cortar o pão, eram os responsáveis por dizer qual das irmãs começaria a comer primeiro, quem escolheria a melhor fatia de queijo e quem teria que esperar pela sua vez de passar geléia. Esse pequeno ato de autoridade nos separava. Meus pais podiam escolher ; eu e as meninas somente esperar até que essa operação se encerrasse.
Mas foi aí, quando comecei a aprender a me alimentar sozinha, que eles começaram a perder o controle sobre mim : Comecei até a achar que seria capaz de fazer a minha prória comida.
E aí, se pensa que poderia ter feito um bando de coisas de maneiras diferentes:
Amado menos do que amou, desejado uma quantidade menor de filhos, um casamento com uns 200 convidados a menos e não ter arrancado uma página da revista de noivas da mãe porque não queria que ninguém se casasse com o vestido que entraria em uma pequena capela no campo, às nove da manhã, fresca e doce para dizer que o amaria eternamente, ao som daquela música que tinha guardado só para ele. Provavelmente também não teria escrito o discurso que faria na hora do brinde, em que diria a ele que todas as vezes que disse que não queria ter uma família, filhos ou casamento era uma reles tentativa de mentir para ela mesma que não precisava de ninguém, mas a prova de que era só dele que ela precisava era que ali, na frente de todas as pessoas que gostava e com quem se importava ela queria dizer que fora só quando o vira pela primeira vez que começara a pensar que poderia ser forte o suficiente para dividir-se e entregar-se a alguém de verdade, e havia dito a isso às desconhecidas que sentavam ao seu lado.
Poderia ter feito menos planos, escrito uma quantidade menor de cartas que não deveriam para ser entregues até completarem 50 anos de relacionamento, e que para que chegassem inteiras até lá estava guardando tudo em uma pasta, junto com as fotos que roubara dele e que ilustravam o dia-a-dia que ela acreditava ser a única coisa que desejara até então.
Provavelmente teria se submetido menos aos seus caprichos e não teria deixado de ser a Senhorita-sem-coração propagada por alguns para se tornar, gradualmente, só mais uma garota apaixonada perdidamente por alguém que todos consideravam médio, até que ela abria a boca para contar todas as maravilhas que a fazia enxergar, e então se tornava um príncipe dono de um fusca-azul-calcinha e com um sorriso, que, de tão secreto, só ela conhecia.
Teria deixado também de não odiar cachorros (só por que ele gostava), de aceitar assitir filmes infantis, de ação, dublados ou qualquer idiotisse do tipo, mesmo tendo batido o pé desde os 14 anos para não ser obrigada mais a assitir essas bobagens, só porque era o que ele considerava um filme assistivel.
Deixaria também de aprender a mexer na wikipédia só para impressioná-lo, de ler sobre linux e cultura internética para fazê-lo sorrir e de fingir que gostava de vê-lo programando, só porque um dia ele dissera que seu sonho era tê-la do lado enquanto fazia isso.
Teria aceitado um número menor de ofensas da sua família e da família dele, teria virado as costas de maneira imperiosa e para sempre no dia em que ele ousara ser agressivo e não teria, nunca, aceitado assistir um filme da disney, dublado e com personagens idiotas só para poder segurar a mão dele, ignorar completamente o que poderia estar passando na tela e passar 1 hora e 45 minutos repetindo mentalmente a mesma ladainha de "Por favor, meu deus, que dessa vez a gente dê certo, que eu seja menos ciumenta, que ele seja menos possessivo, que eu saiba dividir o meu tempo para que eu sempre possa vê-lo sorrindo, que eu não pense nunca que ele é bobo porque chora na minha frente que ele nunca pense que eu sou feia, que ele nunca se apaixone por outra pessoa porque se nós nos separarmos eu não terei mais nada a dar pra qualquer outro, porque todos os meus desejos, planos e todo o amor que eu tenho, tudo isso é dele, que ele nunca repita de ano na faculdade, que eu nunca levante a voz pra ele, que a gente nunca mais brigue, que todos os dias possam ser perfeitos e que nós resolvamos qualquer desentendimento muito rápido para que eu possa pular no abraço dele e dar um beijo de reconciliação porque é quando nos reconciliamos que ele sorri com o solhos daquele jeito que ele faz e que faz com que eu acredite que ele é tudo que eu quis pra mim, que a gente dê certo, que eu seja menos ciumenta e blábláblá".
Não teria adquirido o hábito de entrar na capela da faculdade só para ajoelhar e falar, meio sem jeito e todos os dias, para o deus que deveria estar ali que, por favor, sempre os mantivesse juntos porque ela não suportaria não saber se ele estava se alimentando bem, dirigindo sempre sóbrio e usando roupa de frio quando o inverno chegasse, estivesse escovando os dentes, cuidando das unhas e comendo menos manteiga, por que ela sabia que ele ia acabar tendo um infarto de tanta fritura que ele come.
Não estaria esperando o Dia dos namorados para comprar um par de sapatos novos porque os dele estavam verdes ao invés de pretos e que o inverno chegasse logo para que comprasse um outro tricô, afinal, ele havia perdido o lindo suéter que custara todo o vale do dia 1º e ele não tinha muitas roupas de frio.
Deixaria de pensar que em 20 anos estaria morando numa casa com jardim, usando um lindo tricô que ela mesmo teria feito e passaria os dias escrevendo e traduzindo poesia para que pudesse cuidar da casa grande e cheia de crianças e um casal de labradores na qual ele chegaria todos os dias, faria o jantar para toda aquela gente, e que sorrindo colocaríam as crianças para dormir o mais rápido possível para que pudessem arrancar as roupas e entregarem-se um para o outro naquele amor desenfreado e desajeitado que sempre causava acidentes físicos,e que caindo da cama e escorregando pela parede em que ele insistia para que ela se apoiasse, explodissem um tampando a boca do outro para que as crianças não ouvissem o quão felizes eles poderiam ser mesmo depois de tanto tempo juntos.
Se não tivesse feito isso, talvez não estivesse catando os pedaços do que sobrou quando o conto-de-fadas chegara a o fim entre choro de um, alívio de outro e uma tristeza que, dessa vez, por mais que os planos fossem extremamente específicos quanto a isso, não poderiam mais ser divididos com ele, como todo o resto.
a) Chutar a boca do desgraçado e fazê-lo agonizar na sua frente;
b) Trocar a senha do orkut dele, do e-mail e apagar os seus arquivos virtuais;
c) Espalhar para o círculo de amizades dele quantas vezes ele brochou;
d) Chorar que nem uma condenada, gritar com todo mundo e tentar o suicídio;
e) Agir como uma lady depois de realizar pelo menos duas das opções acima
Rosa (Arrumando a Mala!) diz:
vc acha que amizade tem prazo de validadE?
Zuliani. diz:
relacionamentos amorozos são produtos consumiveis, materiais
Zuliani. diz:
amizades são mais como viagens
Zuliani. diz:
qdo c tá viajando é bem intenso... dps viram fots, lembranças e coisa e tal.
Zuliani. diz:
mas é bem mais gostoso pq amigo num azeda..aeeee
...Desculpa se te fiz fogo e noite
Sem pedir autorização por escrito
Ao sindicato dos deuses...
Mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
Como refúgio dos meus sentidos
Pedaço de silêncios perdidos
Que voltei a encontrar em ti...
Foi essa semana que eu me descobri subitamente um... mulherão.
Acordei com o sol incendiando o quarto, me expulsando da cama menos por vontade e e mais por calor.
Escancarei a Janela do banheiro e deixei a luz brincar pelo meu corpo enquanto enxaguava o cabelo.
Passeei de toalha pela casa depois do banho, escolhi vestir uma das minhas saias leves para combinar com a temperatura absurda para aquela hora da manhã.
Apoiei o pé no vaso sanitário, arrumei as minhas unhas, tirei o esmalte antigo, cortei.
Feito isso, foi a vez de passar para as pernas, que escondidas pelas calças compridas, estavam sem cuidado a algum tempo.
Largada a toalha no chão, foi a vez de me armar de lâminas de barbear e sabonete cremoso, colocando com muito pouco cuidado o pé dentro da pia.
Ensaboei as pernas, e estava quase chegando no joelho que me dei de cara com a minha própria cara no espelho na miha frente.
O cabelo, já quase seco com a demora para escolher a roupa, fazia cachos caprichosos em volta do meu rosto. Á muito tempo não tinha esse castanho claro, alaranjado, cor que passou os dois últimos anos escondida por tinturas esporádicas.As bochechas rosadas, os ombros largos, os seios redondinhos, tudo apoiado sobre a perna dobrada na pia.
Me encarei por um bom tempo, sem entender muito bem, por que me sentia tão dona de mim, ali, às oito e meia da manhã, com o Cartola cantando nas caixas de som "...era o que faltava em mim, uma esperança fraca...", O sol brincando pelos azulejos azuis, a minha sobrançelha por fazer, a minha boca num meio sorriso, minhas mãos empunhando uma gilete, a depilar as panturrilhas não mais tão musculosas quanto costumavam ser.
Me descobri... um mulherão de 1.65m.
Ouvindo, Cartola, Divina Dama: Eu dançei com você, divina dama, com o coração queimando em chamas..