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Escola de Atenas




Quinta-feira, Novembro 29, 2007

"Aconchegou-se no metrô, fechando os olhos para as marcas de suor embaixo das axilas dos homens feios e sujos, para as barrigas grandes aparecendo abaixo das camisetas curtas e velhas das mulheres: não era um deles.
As janelas fechadas criavam um clima de inferno tropical em pleno inverno, era um dia de cão, e como tal seria tratado; ela levantaria do banco cor de merda do metrô paulistano, deixando para trás uma marca molhada do vão entre as suas pernas levemente molhada no assento. Era aquela marca um vestígio vergonhoso do fato de estar vivendo entre aqueles animais, de estar suando e respirando entre eles, uma constatação assustadora do fato de ser, mesmo que só nas porcarias da vida, próxima daquelas bestas assustadoras.
Sete da manhã, Oito da noite, três da Tarde ou meio dia, a sensação era sempre a mesma, o calor, o abafamento e a estufa infernal que existiam naquele subterrâneo não mudavam em razão da época ou da hora, era sempre a mesma imundice podre, a sujidade da existência pobre e periférica que pareciam crescer sempre que delas se reclamasse.
“O nojo, pensava, é o nojo que me difere deles. É o nojo dessas mulheres feias, desses homens fétidos, desses monstros subumanos, dessas crianças demoníacas e sujas que me afasta da não-vida dessa gente. Eu sei o que faço. Eu sei o que sou. Eu sei o que quero. Eles inexistem: Eu sou.”
Levantou para sair do vagão, tomando cuidado para não encostar-se a algo que pudesse provocar a ânsia que regurgitaria a vida limpa e bela que guardava dentro de si sobre aqueles ombros pesados e marcados dos homens e dos peitos murchos e acabados das mulheres. Vomitar a sua essência, feita de torrada, geléia e suco de laranja sobre a cabeça daquelas crianças que tomavam café com leite e pão seco.
Gorfaria seu desjejum aos pés mal calçados daqueles zumbis diários, como se aquele deslize fosse um pedido de perdão divino. Lavar, com seus fluídos, os pés apostólicos daquelas bestas demoníacas, enxugar a umidade que dela haveria saído com as páginas amarelas dos livros desbeiçados que carregava nos braços, seria essa a única forma de redimir aquela gente do pecado de ser miserável?"

Momento post-it: Em primeira mão, o primeiro capítulo do livro que um dia terminarei

Ouvindo Phanton Planet, Lonely Day: "... It´s gonna be a lonely, lonely, lonely, day... When you want it all to go away..."

Momento Post-it: Eu consertei linha teleFônicas hoje. Uma estagiária bombril, fato!

Rabiscado por Mariana às 6:19 PM
Cutucaram:


Domingo, Novembro 04, 2007

Estava Chovendo. Era óbvio.
São Paulo nas últimas semanas tem sido um misto de mármores do inferno e Dilúvio de Noé, com essas duas situações se alternando em períodos de mais ou menos 4 horas.
Só existem três situações em que chove: Aquelas que não podiam chover, as que seriam muito melhor nada se molhar e as que se chovesse, resultariam em Desastre.
Era óbvio que estava chovendo porque eu estava enfrentando o último tipo de situação; a de desastre iminente.
Atrasada, de sandália e carregando uma caixa de bombons de chocolate caríssimos para um procurador da república. O fato do ônibus ter parado ali, naquela passagem entre a paulista e a Dr. Arnaldo, fez com que eu nem notasse direito os grafites, os mendigos ou qualquer outra coisa. Estava irritada, com calor e com a paciência no limite.
Mudei de assento, para um lado onde a janela pudesse ficar aberta e eu não ficasse ensopada pelos pingos do tamanho de bolinhas de gude que batiam nas janelas como se quisesse quebrá-las. Sentei-me atrás de um senhor que, num olhar de relance, estava resmungando sozinho para si mesmo, sabe-se lá se da chuva, do trânsito ou do calor amazônico dentro do coletivo.
O Homem gesticulava firmemente e resmungava baixinho algo que eu não conseguia distinguir entre palavras e grunhidos.
Eu, bufando e reclamando pra mim mesma, me senti compreendida, abençoadamente compreendida, como se ele fosse solidário ao meu atraso, ao meu pé que ficaria molhado, ao meu mal-humor, à minha fome, à minha vontade de quebrar os vidros com os punhos e pular do ônibus para chutar a boca de Deus que tudo encharcava com aquela chuva insana.
Pensando na idiotice de chegar a Deus e dizer: “Por que só chove quando uso havaianas?”, a chuva amainou e eu consegui entender o que o homem resmungava: Ele cantarolava alguma coisa que meus parcos conhecimentos de música clássica classificaram como música de câmara.
Olhei para frente e foi aí que o homem, Deus, os chocolates gran-finos e os mendigos da passagem entre a Dr. Arnaldo e a Paulista explodiram dentro de mim, enquanto eu olhava para as mãos daquele homem feio e suado que grunhia à minha frente: no colo do homem, estavam partituras. O homem gesticulava para a janela como se tentasse reger a chuva, com olhos quase cerrados, soltando baixinho o som que supostamente sairia do controle de suas mãos.
Era pobre, estava suado e amarrotado, vestia roupas simples e gastas. Andava de ônibus na chuva, ficava em congestionamentos, em coletivos fedidos, mas era um maestro.
Eu a minha pobreza, eu e a minha falta de senso, de dinheiro, de comida, de tudo, eu e a minha falta! Eu, eu, eu, eu e a chuva que batia na janela que o homem transformava dentro dele em música que escorria no vidro, escorria pela lataria empoeirada do ônibus e caía no asfalto já cinza.
Saí do ônibus me sentindo desamparada, como se tivesse, por instantes, pairado acima daquela situação humilhante de suar dentro de um ônibus, para logo depois ser jogada, num mosh absurdo, em cima daquelas pessoas que se amarrotavam no corredor do coletivo.
O Homem não era um dos meus. E eu sabia disso.


Momento post-it: "Sometimes, there's so many beuty in the world, that I can't stand it"

Ouvindo Thievery Corporation, The time we lost our way: ...Hear my love where your heart colides...Gentle memories replace our tears

Rabiscado por Mariana às 12:47 PM
Cutucaram: