“People tell me to keep on dreaming, that's just what i'm gonna do”
Eu costumava passar os finais de semana atracada com ele. Eu sempre estava ocupada em tempo integral durante a semana e sábado e domingo significavam tardes preguiçosas de sofá, usando programas de tevê como desculpa para passar mais de 5 horas matando as saudades.
Esporadicamente eu reclamava que queria sair, que devíamos ter programas com outras pessoas... No final das contas nós acabávamos brigando e ficando no sofá. Eu encaixava as minhas pernas no meio das dele, prendia o meu pé no tornozelo dele e apoiava a cabeça na curva dos ombros largos dele.
Eu, que era tão pequena quando estávamos em pé - afinal, tínhamos adoráveis 15 centímetros de diferença – era a exata medida quando estávamos no sofá – cada pedaço de mim cabia exatamente na pele dele, e eu me sentia do tamanho da saudade que sentia: gigante.
Fato era que acabávamos pegando no sono entre um documentário do Discovery Channel e outro e, muitas vezes ele acordava com cãimbra ou com braços dormentes já que não se mexia para não me acordar. Eu sempre o acordava, seja porque ele havia virado o braço de um jeito desconfortável ou porque estava roncando – e ele roncava muito. Hoje vejo como esses despertar eram egoístas.
Alguns dias trocávamos os sofás (um de tapeçaria branca de três lugares na casa dele ou um largo e bege na minha casa) por uma rede azul que ficava pendurada no jardim. Normalmente ficávamos na rede depois de umas orgias alimentares dominicais, que aconteciam em uma mesa larga de madeira que ficava embaixo de um telhado, na beira da piscina, regadas a muito amendoim, azeite, guaraná kuat zero (o refrigerante favorito dele) e todo tipo de comida gostosa.
Quando ficávamos na rede, sempre deitávamos um de um lado um do outro: eu adorava ficar olhando para os pés dele. Ele tinha os dedos de um tamanho bem bonitinho, e, como todo homem, uns pêlos mal distribuídos. O pé esquerdo era mais peludinho, e o dedão tinha uns pêlos cacheadinhos como o cabelo dele. Era engraçado aquele dedão moreno, com uns pelos macios, enrolados e tão bonitinhos.
Lembro de um dia em que pegamos no sono na rede azul e eu acordei morrendo de frio, muito, muito tarde da noite. Estávamos com as pernas entrelaçadas, e o céu estava estrelado. Eu fiquei imóvel bem por uns 10 minutinhos, tremelicando de frio e abraçada nos tornozelos dele, com o rosto apoiado naquele pé com pelos cacheadinhos, pensando em como era bonita aquela nossa história.
Atualmente, troquei os finais de semana de sofá por longas tardes de conversa e cerveja ou estudos tediantes sobre Direito Societário.
O pensamento ainda naquelas tardes cheias de preguiça e amor.