Olha, vou começar dizendo que, um dia, foram embora. As minhas irmãs foram embora, um amor se foi, e eu fiquei.
Dormindo no mesmo quarto, na mesma cama que dividi com essas pessoas que foram embora – as irmãs, que dormiam do meu lado quando eu assistia filme de terror e morria de medo e o amor que ficava escondido comigo na cama de solteira quando meus pais saiam.
Eu fiquei, a cama ficou, a decoração ficou e o couer não pode mudar de estação, afinal, a pUpload de ArquivoUpload arada ainda era a mesma – o quarto branco/pink/roxo onde eu sempre dormi.
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Um outro dia, mudei a cama de lugar. Coloquei a mesa de estudos embaixo do armário e a cama embaixo da janela. Não deve ser bom pro feng shui, mas, olha, me faz um bem danado acordar com sol no rosto quando o dia está bom e ouvir a chuva batendo na janela, literalmente.
Tirei a TV e ocupei o espaço com prateleiras para os livros – bem mais bonito, bem mais bacana.
Troquei com uma das irmãs que foi embora o quadro de fotos. O novo mural merecia fotos novas, e foi bom trocar isso também. As fotos do amor foram deixadas no fundo da gaveta. As fotos das irmãs fazem saudades no metal branco, presinhas com imãs enfeitados com cristaizinhos de plástico.
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Hoje foi um dia muito, muito bom. Toda vez que me sinto feliz, sinto saudade do antigo amor. Eu gostava de dividir felicidades com ele, acho que é a única coisa que faz falta até doer. Então subi para o meu quarto. Fiquei no meu cantinho, a estação onde meu coração fica batendo parado.
Tentei ler, meu quarto estava escuro – e lembrei que eu sempre comentava com as irmãs e com o amor que eu queria enfeitar meu quarto com luzinhas de Natal. E sempre fui rechaçada fortemente – achavam banal. Bobinho. Breguinha. Eu via pelo Decouração, futricava no Apartment Therapy, o coeur sabia que salpicar o meu quarto dessas luzes era algo fadado a ficar bonito
Bom, então, eles foram embora. E eu enfeitei a estação onde o coração ainda bate com luzinhas-flores. Luz de Natal enfeitada com florzinha de papel que um dia foi forminha de dos docinhos que a minha mãe faz.
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Pra saudade, me dei flores. Flores, brilhos, uma luminária e a satisfação do meu primeiro projetinho de design concluído.
Usei as flores-luz para enfeitar o porta retrato dos meus anjos da guarda, que fica na cabeceira.
Só fez desse domingo feliz algo mais feliz ainda. Não pude dividir com o amor que passou. Mas as irmãs viram. Acharam lindo. Eu também achei.
Deu vontade de dividir com vocês. Fica o meu beijo. E a estação brilhante.
Momento Post-it: Tem galeria de fotos do invento aqui, ó http://www.flickr.com/photos/marianarosa/
Saiu do trem para a plataforma intermediária, nariz empinado e fones de ouvido, com os olhos em algo que não estava lá.
As muitas pessoas em volta não chegavam a formar uma multidão, o horário no meio da tarde impedia aquela sensação calma e pacificante de estar perdida em um mundo de gente que não se conhece. Ali, entre poucos desconhecidos, a vida era mais solitária.
O deslocamento de vento provocado pela movimentação do trem atingiu em cheio as suas costas, lembrando que além de um conjunto de memória, músicas perdidas e tristezas, existia um corpo a abrigar os pensamentos.
Caminhou lentamente, parou a olhar os trilhos. Posicionou os pés calçados em saltos 8 já após a faixa amarela, o bico redondo já a tocar o fim da plataforma, verniz no ar.
Um segundo. Dois segundos. Três.
O Trem veio lentamente, como se soubesse, e, ao passar na sua frente, levantou um vento morno.
Sobrevivera a mais uma tarde.
“People tell me to keep on dreaming, that's just what i'm gonna do”
Eu costumava passar os finais de semana atracada com ele. Eu sempre estava ocupada em tempo integral durante a semana e sábado e domingo significavam tardes preguiçosas de sofá, usando programas de tevê como desculpa para passar mais de 5 horas matando as saudades.
Esporadicamente eu reclamava que queria sair, que devíamos ter programas com outras pessoas... No final das contas nós acabávamos brigando e ficando no sofá. Eu encaixava as minhas pernas no meio das dele, prendia o meu pé no tornozelo dele e apoiava a cabeça na curva dos ombros largos dele.
Eu, que era tão pequena quando estávamos em pé - afinal, tínhamos adoráveis 15 centímetros de diferença – era a exata medida quando estávamos no sofá – cada pedaço de mim cabia exatamente na pele dele, e eu me sentia do tamanho da saudade que sentia: gigante.
Fato era que acabávamos pegando no sono entre um documentário do Discovery Channel e outro e, muitas vezes ele acordava com cãimbra ou com braços dormentes já que não se mexia para não me acordar. Eu sempre o acordava, seja porque ele havia virado o braço de um jeito desconfortável ou porque estava roncando – e ele roncava muito. Hoje vejo como esses despertar eram egoístas.
Alguns dias trocávamos os sofás (um de tapeçaria branca de três lugares na casa dele ou um largo e bege na minha casa) por uma rede azul que ficava pendurada no jardim. Normalmente ficávamos na rede depois de umas orgias alimentares dominicais, que aconteciam em uma mesa larga de madeira que ficava embaixo de um telhado, na beira da piscina, regadas a muito amendoim, azeite, guaraná kuat zero (o refrigerante favorito dele) e todo tipo de comida gostosa.
Quando ficávamos na rede, sempre deitávamos um de um lado um do outro: eu adorava ficar olhando para os pés dele. Ele tinha os dedos de um tamanho bem bonitinho, e, como todo homem, uns pêlos mal distribuídos. O pé esquerdo era mais peludinho, e o dedão tinha uns pêlos cacheadinhos como o cabelo dele. Era engraçado aquele dedão moreno, com uns pelos macios, enrolados e tão bonitinhos.
Lembro de um dia em que pegamos no sono na rede azul e eu acordei morrendo de frio, muito, muito tarde da noite. Estávamos com as pernas entrelaçadas, e o céu estava estrelado. Eu fiquei imóvel bem por uns 10 minutinhos, tremelicando de frio e abraçada nos tornozelos dele, com o rosto apoiado naquele pé com pelos cacheadinhos, pensando em como era bonita aquela nossa história.
Atualmente, troquei os finais de semana de sofá por longas tardes de conversa e cerveja ou estudos tediantes sobre Direito Societário.
O pensamento ainda naquelas tardes cheias de preguiça e amor.
Existem dias. E existem dias realmente bons.
Hoje era só um dia.
Tinha colocado a roupa escolhida de véspera (já para evitar desesperos do tipo “com que roupa eu vou”) e achado uma porcaria. Saí correndo, de salto alto, cabelo arrumado e maquiagem e ainda de pijama para a lavanderia, onde baguncei a roupa para passar, queimei uma camisa e decidi vestir a roupa previamente escolhida – só para me sentir uma pateta por fazer esse tipo de coisa quase todos os dias.
Eu ignorei o dia perfeito em volta, de céu azul brilhante, sem nuvens, um solzinho matreiro vindo sabe-se-lá de onde. Não dava para prestar atenção; esse era só um dia, e como tal seria tratado.
Ignorei a sorte de ir sentada no metrô em horário de pico, fingi que não vi que um moço bem do jeitoso levantou para que eu sentasse naquela bagunça do trem, fui só educada com a velhinha que me deu a informação do ônibus para o caminho certo e tomei por garantido o cobrador perguntando se eu não queria o jornal, se eu sabia direitinho em que ponto descer.
Aceitei como normal o fato de que peguei todos os faróis de pedestre para atravessar a Faria Lima Abertos. Desconheci a delicadeza da recepcionista ao me desejar, de verdade, boa sorte na entrevista. Passou batido o sorriso dos meus entrevistadores ao se despedirem.
Recebi as pequenas dádivas do meu dia como quem recebe uma tarefa. Como quem já sabe, como quem não se importa.
Perdi-me para voltar. Perguntei para todo mundo no ponto. Perguntei para os cobradores e motoristas de todos os ônibus que passaram e simplesmente ninguém sabia como sair dali.
Foi com a mesma carga que aceitei o “-Esse serve” do último ônibus que passou. Entrei, o motorista fechou a porta e, enquanto eu tentava me equilibrar entre o salto 8 e a minha pasta, ouvi: “-Olha, não passa a catraca não. Fica aqui na frente. Esse ônibus não passa lá”.
Olhei feio. Mas era óbvio que isso aconteceria num dia. Quando se tratam simplesmente de dias, esse tipo de coisa acontece. O motorista, parado no semáforo, olhou no fundo dos meus olhos e disse, num tom sorridente:
“-O ponto onde o ônibus para a Paulista passa é longe daqui, mas é o caminho desse ônibus. Não vamos deixar você parada lá à toa não é? Olha, pega o jornalzinho aqui do lado!”
Ele continuou sorrindo, e pelo breve trecho que ele me levou – realmente era longe do lugar onde eu estava – ele assobiou alguma coisa que me lembrou a minha avozinha, que há tanto tempo não vejo.
“-Olha, desce aqui no farol e dá uma corridinha até o outro lado da rua. Você vai ver o ponto! Tchau! Bom dia!”
Levou cinco quarteirões de trânsito, toda a lembrança da minha infância na casa da minha avó e profundas discussões sobre a futura conjunção de marte no meu signo para que eu percebesse que de certa forma, bem, de certa forma, a maioria dos dias é realmente bom.
Momento post-it: Passei para a segunda fase da entrevista! Acabaram de me contar, e olha... nem tomava por certo
Todo mundo tem uma música. Nós temos as músicas para ouvir no carro, as músicas para foder, as músicas para tomar banho, são músicas para lavar louça, músicas que lembram os amigos, músicas que lembram momentos (que são inesquecíveis com ou sem música).
O que não costumamos prestar atenção é na música incidental. Lógico que em um mundo onde todo mundo anda de fone de ouvido, a música incidental deixa de fazer parte da nossa vida para ser simplesmente aquilo que atrapalha a execução do set list pré-programado.
O barulho dos carros, das pessoas conversando, os passos abafados no carpete, os talheres nos pratos, a vida acontecendo em volta se torna mera mímica; o som, afinal, está sendo reproduzido somente nos nossos ouvidos.
Assumo que eu mesma sou adepta dos fones de ouvido. Sou uma louca por música desconhecida e apaixonada por rádio, e dificilmente sou vista sem fones de ouvido ou passando mais de duas horas sem falar em música.
Mas tem algo que sempre me intrigou: como pode uma mesma música se repetir em momentos tão diferentes, causando o mesmo impacto?
Assuma, você também tem uma música que se repete. Que toca no rádio exatamente naquele momento que você precisa ouvir, que você ouve sempre que clica em shuffle, Que toca na casa de alguém quando você entra, que simplesmente toca nos restaurantes, que você ouve sem querer ao passar por uma porta entreaberta.
Eu tenho uma música assim, e, com o tempo, percebi que era parte de um conjunto de músicas incidentais que tocam em alguns momentos da minha vida, assim, sem querer.
É como se a intenção fosse mostrar que os momentos desconexos em que eu consigo ouvir os seus acordes não são tão desconexos assim, mas sim a trilha sonora perfeita de algo que ainda não consigo entrever.
“...one of us is changing..” é o que a Carole King canta logo no comecinho de “It's too late” a minha música incidental, e termina prometendo que “...There'll be good times again”.
Hoje, a música está tocando por aqui. Não acidentalmente.
Carole King, It's too late: ... Though we really did try to make it... It's too late"
E então, prendeu a respiração.
Ali, na janela em que se debruçava para observar a manifestação, o braço desvelado pela manga dobrada da camisa dele encontrou o pulso dela.
Tentando encontrar o ângulo certo para a foto do caos em que a avenida se encontrava, o braço dele tocou de leve o pulso dela.
Abalada pela proximidade, ela simplesmente não se moveu. Prendeu a respiração numa tentativa de que ele não percebesse que ela estava ali, que estavam se tocando e assim permanecesse o máximo posível.
Não era um ensejo. Não era um convite. O Braço que roçava o pulso era apenas uma sugestão da intimidade que cerca as pessoas que dividem um segredo.
E o segredo era ela.
Ela sabia que ele sabia. Ela sabia só de olhar para o rosto cansado dele. Ela sabia que aqueles olhos marcados e fundos sabiam de tudo.
Era uma certeza tão grande que ele guardava em si toda a sabedoria do mundo que era a ele que recorreria quando os conhecimentos não bastassem: Para que ir?Quais as cores da bandeira da Macedônia? Que horas tiro o bolo do forno? Para onde vou nas férias? Qual a estratégia certa?
O braço que roçava o pulso sabia de tudo. Sabia que ela se escondia dele nos desvãos do escritório. Sabia que ela corava quando o ouvia tossir na sala ao lado. Sabia da vontade dela de contar a ele os seus pequenos movimentos diários, suas limitaçõe, os segredos do seu corpo e as vontades do sorriso.
Seguia com o pensamento o cheiro de tabaco dele nos corredores acarpetados. Olhava o rosto dele com cuidado todos os dias: precisava ver nos olhos sempre fundos dele se tinha dormido bem.
Ela sabia também. Sabia só de olhá-lo se estava triste, se tinha feito amor com a esposa bonita e delicada com que tinha recém se casado ou se tinha passado a noite preparando alguma coisa importante. Sabia, e bastava um olhar de soslaio para as costas encurvadas dele, se ele tinha almoçado.
O que nenhum do dois sabia é que O braço que toca o pulso é mais rápido que o pensamento: Encostou de leve no pulso dela e foi embora levando só a foto da avenida.
"Aconchegou-se no metrô, fechando os olhos para as marcas de suor embaixo das axilas dos homens feios e sujos, para as barrigas grandes aparecendo abaixo das camisetas curtas e velhas das mulheres: não era um deles.
As janelas fechadas criavam um clima de inferno tropical em pleno inverno, era um dia de cão, e como tal seria tratado; ela levantaria do banco cor de merda do metrô paulistano, deixando para trás uma marca molhada do vão entre as suas pernas levemente molhada no assento. Era aquela marca um vestígio vergonhoso do fato de estar vivendo entre aqueles animais, de estar suando e respirando entre eles, uma constatação assustadora do fato de ser, mesmo que só nas porcarias da vida, próxima daquelas bestas assustadoras.
Sete da manhã, Oito da noite, três da Tarde ou meio dia, a sensação era sempre a mesma, o calor, o abafamento e a estufa infernal que existiam naquele subterrâneo não mudavam em razão da época ou da hora, era sempre a mesma imundice podre, a sujidade da existência pobre e periférica que pareciam crescer sempre que delas se reclamasse.
“O nojo, pensava, é o nojo que me difere deles. É o nojo dessas mulheres feias, desses homens fétidos, desses monstros subumanos, dessas crianças demoníacas e sujas que me afasta da não-vida dessa gente. Eu sei o que faço. Eu sei o que sou. Eu sei o que quero. Eles inexistem: Eu sou.”
Levantou para sair do vagão, tomando cuidado para não encostar-se a algo que pudesse provocar a ânsia que regurgitaria a vida limpa e bela que guardava dentro de si sobre aqueles ombros pesados e marcados dos homens e dos peitos murchos e acabados das mulheres. Vomitar a sua essência, feita de torrada, geléia e suco de laranja sobre a cabeça daquelas crianças que tomavam café com leite e pão seco.
Gorfaria seu desjejum aos pés mal calçados daqueles zumbis diários, como se aquele deslize fosse um pedido de perdão divino. Lavar, com seus fluídos, os pés apostólicos daquelas bestas demoníacas, enxugar a umidade que dela haveria saído com as páginas amarelas dos livros desbeiçados que carregava nos braços, seria essa a única forma de redimir aquela gente do pecado de ser miserável?"
Momento post-it: Em primeira mão, o primeiro capítulo do livro que um dia terminarei
Ouvindo Phanton Planet, Lonely Day: "... It´s gonna be a lonely, lonely, lonely, day... When you want it all to go away..."
Momento Post-it: Eu consertei linha teleFônicas hoje. Uma estagiária bombril, fato!
Estava Chovendo. Era óbvio.
São Paulo nas últimas semanas tem sido um misto de mármores do inferno e Dilúvio de Noé, com essas duas situações se alternando em períodos de mais ou menos 4 horas.
Só existem três situações em que chove: Aquelas que não podiam chover, as que seriam muito melhor nada se molhar e as que se chovesse, resultariam em Desastre.
Era óbvio que estava chovendo porque eu estava enfrentando o último tipo de situação; a de desastre iminente.
Atrasada, de sandália e carregando uma caixa de bombons de chocolate caríssimos para um procurador da república. O fato do ônibus ter parado ali, naquela passagem entre a paulista e a Dr. Arnaldo, fez com que eu nem notasse direito os grafites, os mendigos ou qualquer outra coisa. Estava irritada, com calor e com a paciência no limite.
Mudei de assento, para um lado onde a janela pudesse ficar aberta e eu não ficasse ensopada pelos pingos do tamanho de bolinhas de gude que batiam nas janelas como se quisesse quebrá-las. Sentei-me atrás de um senhor que, num olhar de relance, estava resmungando sozinho para si mesmo, sabe-se lá se da chuva, do trânsito ou do calor amazônico dentro do coletivo.
O Homem gesticulava firmemente e resmungava baixinho algo que eu não conseguia distinguir entre palavras e grunhidos.
Eu, bufando e reclamando pra mim mesma, me senti compreendida, abençoadamente compreendida, como se ele fosse solidário ao meu atraso, ao meu pé que ficaria molhado, ao meu mal-humor, à minha fome, à minha vontade de quebrar os vidros com os punhos e pular do ônibus para chutar a boca de Deus que tudo encharcava com aquela chuva insana.
Pensando na idiotice de chegar a Deus e dizer: “Por que só chove quando uso havaianas?”, a chuva amainou e eu consegui entender o que o homem resmungava: Ele cantarolava alguma coisa que meus parcos conhecimentos de música clássica classificaram como música de câmara.
Olhei para frente e foi aí que o homem, Deus, os chocolates gran-finos e os mendigos da passagem entre a Dr. Arnaldo e a Paulista explodiram dentro de mim, enquanto eu olhava para as mãos daquele homem feio e suado que grunhia à minha frente: no colo do homem, estavam partituras. O homem gesticulava para a janela como se tentasse reger a chuva, com olhos quase cerrados, soltando baixinho o som que supostamente sairia do controle de suas mãos.
Era pobre, estava suado e amarrotado, vestia roupas simples e gastas. Andava de ônibus na chuva, ficava em congestionamentos, em coletivos fedidos, mas era um maestro.
Eu a minha pobreza, eu e a minha falta de senso, de dinheiro, de comida, de tudo, eu e a minha falta! Eu, eu, eu, eu e a chuva que batia na janela que o homem transformava dentro dele em música que escorria no vidro, escorria pela lataria empoeirada do ônibus e caía no asfalto já cinza.
Saí do ônibus me sentindo desamparada, como se tivesse, por instantes, pairado acima daquela situação humilhante de suar dentro de um ônibus, para logo depois ser jogada, num mosh absurdo, em cima daquelas pessoas que se amarrotavam no corredor do coletivo.
O Homem não era um dos meus. E eu sabia disso.
Momento post-it: "Sometimes, there's so many beuty in the world, that I can't stand it"
Ouvindo Thievery Corporation, The time we lost our way: ...Hear my love where your heart colides...Gentle memories replace our tears
Ah, como é grave o adeus
O adeus de mãos tristes
De "não-te-amo-mais
E-ainda-bem-que-já-vais"
Os adeuses esbranquiçados
Por lágrimas posto que não de dor
Mas sim de Alívio
Ah, os adeuses aliviados
Que soltam os amantes traiçoeiros
Adeuses da cor-de-vergonha que só
o corno que adorna a testa do outro pode pintar
Ah, os adeuses alegres da troca de lençóis
Da troca de corpo, do escolher entre tu e ele
Ah, como adoro um adeus hipócrita
Lacrimoso e dolorido
Que só sente quem é trocada
Como um velho, brega e esfarrapado vestido.
Momento Post-it: Eu desisti dessa idéia de que quero que as aulas voltem. Estou com uma preguiça...
Um dos meus maiores problemas... é ser fofa.
Não importa quem seja: Marmanjos marombados, moçoilas de decotes e os cultos de óculos: todos sentem uma necessidade incrível de, ao me conhecer, apertar as minhas bochechas, falarem comigo como se eu fosse um filhote de poodle ou sorrir com um ar meio de "ooh" como se o meu olhar fosse algo parecido com o do gato de botas para os soldados; Um saco.
Sei que se eu tenho tanta gente que se importa comigo isso provavelmente vêem da fofice que chega 2km antes de mim em qualquer lugar que eu vou. Há mulheres que esbanjam uma sensualidade atraente, outras, que têm seios lindos. Há homens cujos narizes chegam primeiro nas salas de aula, ou são ogros absurdos, que nem é preciso falar "-oi" para saber.
A minha fofice é dessas: não é preciso ouvir a entonação da minha voz ou me ver sorrindo pra ter vontade de me colocar no colo.
A primeira coisa que pensam ao me conhecer é; Que simpática, que boazinha, que fofa, que querida!
Eu não sou! Eu sou um monstrinho de quase 20 anos, uma jovem mulher feminista, eu trabalho, eu estudo, eu falo espanhol!
Sei que as minhas bochechas são macias, que meus gestos são delicadinhos e desajeitados, e que quando fico sem graça fico rosada até o último fio de cabelo. Mas...É pedir demais pra não ser comparada a um bebê?
Quem não me conhece provavelmente vai achar que é pretensão, e que eu fiz um texto auto-elogiativo só para chamar atenção.
Mas,infelizmente caro leitor, não é. Se você duvida, me convide para sair. Vamos ver se você não muda de idéia.
Momento Post-it: Quero ir no teatro do Sesi semana que vem, alguém?
Ouvindo Cartola, Injúria: "não sei o que foi te derrubar, o castelo que eu fiz...em meu castelo era tão feliz"
Viro e reviro na cama em busca de uma posição que me permita repousar, de olhos abertos e fixos no armário de madeira suspenso acima do meu rosto, pelas longas horas que se arrastarão até que o sono chegue.
Passo quase três horas criando pequenos jogos comigo mesma: reconstruo os diálogos que tive durante o dia, corrigindo meus erros. Imagino cenas futuras, em que eu sempre sou bem sucedida. Tento recriar mentalmente coisas que só ouvi falar, e não faço a menor idéia do que sejam; coisas como os jardins suspensos da babilônia, ou framboesas. Faço listas idiotas, como " Cinco filmes que não valem a entrada do cinema" ou "Cinco músicas que lembram momentos embaraçosos da minha vida" ou pior " Cinco maneiras para falar não para a minha chefe".
Nada adianta: O travesseiro nunca está do jeito que quero, o pijama incomoda, e ainda o lençol sempre sai do lugar.
Amanhã, ao acordar, pisarei em cima de todos eles e me arrastarei, vestindo o que sobrar do pijama, até o banheiro, para olhar para o meu rosto e tentar me convencer que, novamente desaprendi a dormir.
Resumindo: Uma merda.
[b] Momento post-it: Crises de insônia são algo corriqueiro em minha vida, mas o problema é que eu nunca tenho insônia quando preciso. [/b]
Dizem que o outono é a estação da rinite, do morango e das inversões térmicas desesperadoramente rápidas.
Outono pra mim é a melhor estação do ano.
A única estação do ano que se pode tomar sorvete sem medo que ele derreta demais ou congele a sua boca, a melhor estação para piqueniques no Ibirapuera, a época perfeita para se andar por São Paulo, já que a cidade fica coberta de Ipês floridos em seus tons fortes e seus tapetes de pequenas flrozinhas no chão, é o tempo perfeito para ler de tarde, as tardes de outono são longas, modorrentas e frescas, com um vento gelado e um sol que aquece levemente a nossa pele, e brilha, brilha iluminando as folhas claras do papel.
Outono em São Paulo é sempre um mistério. Pode-se usar o armário inteiro num único dia, ou passar semanas de camiseta e shorts, só esperando pela mudança de temperatura. É entre Maio e Junho que todos mundo que mora aqui vira metereologista: "Esse vento pra lá é que vai chover", "Se tiver lua no céu e estrelas bem brilhantes de noite é que no dia seguinte vai ter sol", "Quando as nuvens estão assim é que vai ficar nublado amanhã", e outras bizarrices.
Mas o bom mesmo são os dias clássicos de outono:
Os dias em que o frio é grande, e, para sair da cama, só depois de três doses de coragem e uma de loucura; que você se agasalha, se entoca e se cobre de estofamentose mesmo assim passa frio o resto do dia... e que dia! Aqueles dias ensolarados, que o sol chega dói nos olhos. Que o vento passa assoviando e esfriando os pés, e o sol arde no rosto.
Minha mãe conta que eu nasci num dia desse.
Que ela passou frio a madrugada inteira na sala de parto, e quando eu nasci o sol já aparecendo. O sol mais frio que ela já viu. que tinha geado a noite, e que a grama do quintal tinha amanhecido coberta de cristaizinhos de gelo que sumiram tão magicamente como eles havia chegado, assim que o dia chegou por completo.
O outono é o sinal do meu aniversário, das mixiricas, das festas de São João e da inalação.
Esse ano, mais do que nunca, é o sinal de uma vida nova que caiu das folhas do ipê.
-Correndo por que, vaquinha? Vai encontrar um macho?
O grito soou altíssimo no meio da multidão que ia, como em qualquer outro dia, em peregrinação para o metrô lotado. A mulher a que a ofensa de dirigira parou e, por dois segundos, o mundo ficou em suspenso; Ninguém soube qual seria sua reação.
A dúvida durou pouco: A mulher, num único movimento, voou para cima do velho que havia dito tal absurdo, largando a enorme bolsa no chão e parecendo estar descalça, ao invés de estar encarapitada em um salto altíssimo.
-O quê!?- Disse ela, com um berro a pouco menos de cinco centímetros do rosto do ignorante- Repete, seu idiota, repete- continuou ela, de maneira insana.
Ninguém mais se movia, e, iniciou-se um burburinho de rumores das razões da discussão. Ouvia-se que era por que ela tinha pisado no pé dele, dizia-se que ela havia esbarrado no velho com a bolsa. A resposta veio mais rápida, cortando meus devaneios na forma de um berro que ecoou pelo vale do Anhangabaú:
-... Se você não ouviu as minhas desculpas, sinto muito. Mas eu pedi e não aceito esse desrespeito. Repita, Repita se você é homem...
-Vaquinha!- repetiu o homem em voz incerta, talvez por que a raiva da mulher era palpável até para mim, a alguns passos atrás do velho, e sua expressão de ódio era uma máscara para um rosto delicado.
Fui num átimo de segundo, e o tapa soou estralado. O barulho daquele tapa carregava a vergonha da ofensa, e toda a raiva da persistência do insulto. A mão dela continuava a descer, e demorou um pouco mais que o necessário para alguém segurá-la, e impedir que a agressão continuasse. Talvez todos em volta, assim como eu, desejassem ver aquela mulher acertá-lo no orgulho.
A turma do chega - disso entrou em ação e em pouco tempo os dois se perderam na multidão, um resmungando de um lado e outra com vergonha do outro. O som do tapa não. Esse continua no meu ouvido, porque o estralo foi o som do meu ego reconstruído de todos os desrespeitos que já passei por ser mulher.
Momento post it: Infelizmente, tudo que está aí é real, e para piorar, eu não estava assistindo: fui eu quem deu o tapa. Tropecei (em cima de uma bota linda de salto agulha nº8) em um idiota, e, pedi desculpas, correndo em seguida pra encontrar meu primo, que caminhava um pouco mais à frente. O resto é história. Quem me conhece sabe que e sou absolutamente incapaz disso... mas não pude me controlar. acho que está na hora de entrar pra terapia... ¬¬
Ouvindo marvin Gaye, I want you: "...I want you, but i want you to want me..."
Faz MUITO tempo que eu não posto por aqui.
A vontade de escrever continua, e eu, imaginariamente, construo textos que gostaria de dividir com as duas ou três pessoas que acessam o Maga do Id constantemente.
Mas, sabe... tem alguma coisa errada.
Minha vida parece novamente em suspenso: é quase como eu seu estivesse na eminência de algo fantástico, que ainda não sei o que é, e que pode mudar tudo em um piscar de olhos. É também uma sensação de incompletude, de vazio e de medo: do desconhecido, de dificuldades.
Sempre me sinto assim antes do meu aniversário, sabe como é, inferno astral.
Serve tanto para sofrer o que não sofri durante o ano e também para mudar o que tem que ser mudado.
Por enquanto, estamos fechados para reforma. Pode ser que poste amanhã, pode ser nunca mais.
Beijos e até logo,
Mariana
Momento post-it: Fique sossegado, eu continuo amando você. Não sei se é bom ou se é triste, mas continuo acordando mais feliz se sei que vamos nos ver. É o amor que não pára nunca, e que não importa se não te pertence. É minha a felicidade, é meu o prazer e também minha, só minha, a tristeza.
Foi Vinicius uma vez disse que a maior solidão é a de quem não ama... Então eu, meu doce, nunca estou sozinha.
Ouvindo, Samba da Benção, Vinicius: Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste...Qualquer coisa que sente saudade, Um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor...E para ser só perdão"
...A tensão súbita de te ver entrar, parando na minha frente eu, você; uma mesa a nos separar.
Te ter na minha frente, faísca acidental.
Minha perna encostando na tua, numa aceitação muda.
O calor nos lábios, o fogo na mente, eu e você; uma troca de insultos, de elogios, de cumprimentos.
Pega-me pela mão, me encosta e abusa do meu corpo, estupra o meu intelecto.
Morde meu lábio, assopra meu ego e massageia a minha volúpia, Sedução expressa.
Agarra-me , tua língua, minha língua a luta pela sobrevivência no esgrima do desejo.
Saliva invadindo a boca, sua voz invadindo meu ouvido, me lembrando que nem sempre eu sou minha, até que o ritmo indecifrável dos nossos corpos se estabeleça.
Tua mão descobre paragens extintas, minha mão te aperta junto ao peito, Explora meu corpo, conquista-me, exploda-me num Big-bang de...
-Estação Terminal Corinthians-Itaquera, solicitamos a todos que desembarquem nessa estação- Disse o condutor na sua voz de fim de dia.
Odeio meu Período Fértil, eu juro que odeio.
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Momento post-it: quem está acostumado a ler esse blog (acho que uns dois ou três gatos pingados) Já conhece esse texto. Ele nem está tão bom assim. Mas período fértil é tudo a mesma coisa.
Ouvindo Marvin Gaye (quer algo mais apropriado?), I want you: "...You know, when you're in love and your lover leaves you, And you've got nobody, the lonely hours over here
Não estou acostumada com a falta de palavras para expressar algo, não estou acostumada a não ter explicações.
Essa falta de como dizer têm me deixado muito clichê:
Me peguei falando por meio de metáforas batidas do tipo: "Foi como se fosse levasse uma parte de mim";
Prosopopéias do tipo: " A solidão invadiu tudo aqui dentro";
Hipérboles como:" Nunca mais vou gostar de ninguém".
E para falar a verdade... acho extremamente engraçado.
Livrar-se das coisas que passaram não é a coisa mais agradável de se fazer.
ALguém ia ter que fazer o trabalho sujo, em algum momento...
Talvez seja melhor parar por aqui. Já está ficando mais clichê que novela das seis.
Ouvindo, Moska, a Idade do céu: Calma ,Tudo está em calma , Deixe que o beijo dure ,Deixe que o tempo cure...
Momento post-it: Estava ouvindo essa música do Moska... e tive um súbito alumbramento: É uma adaptação da idad del cielo, do Jorge Drexler!
Quando era pequena, tinha a impressão que nunca teria o tamanho dos meus pais.
Eles pareciam tão grandes, inatingíveis e dignos de louvores que seriam, no meu imaginário, sempre altíssimos.
Com o passar do tempo, e o meu crescimento de alguns centímetros, eu comecei a fazer por mim mesmoa várias coisas que só seriam possíveis com a ajuda deles:
Abrir o registro do chuveiro, ler sem a ajuda deles, ligar a Tevê, alcançar as frutas em cima da mesa, conseguir colocar água num copo sem derrubar e mais um monte de pequenas conquistas que, na época, pareciam desafios insuperáveis.
Mas foi no dia em que consegui, sem a ajuda de ninguém, abrir um pão francês que eu percebi que mais cedo ou mais tarde seria como eles.
Minha família sempre teve a tradição de sentar-se a mesa não para almoçar ou jantar, mas sim para tomar café da manhã. Nesses cafés da manhã, quando éramos pequenas, meus pais realizavam o ato que eu considerava um marco adulto: Abrir um pão francês com uma faca afiada sem se cortarem. Eu, ao contrário, já havia desistido de tentar, muitos cortes depois.
Os meus pais, ao serem os únicos que poderiam cortar o pão, eram os responsáveis por dizer qual das irmãs começaria a comer primeiro, quem escolheria a melhor fatia de queijo e quem teria que esperar pela sua vez de passar geléia. Esse pequeno ato de autoridade nos separava. Meus pais podiam escolher ; eu e as meninas somente esperar até que essa operação se encerrasse.
Mas foi aí, quando comecei a aprender a me alimentar sozinha, que eles começaram a perder o controle sobre mim : Comecei até a achar que seria capaz de fazer a minha prória comida.
E aí, se pensa que poderia ter feito um bando de coisas de maneiras diferentes:
Amado menos do que amou, desejado uma quantidade menor de filhos, um casamento com uns 200 convidados a menos e não ter arrancado uma página da revista de noivas da mãe porque não queria que ninguém se casasse com o vestido que entraria em uma pequena capela no campo, às nove da manhã, fresca e doce para dizer que o amaria eternamente, ao som daquela música que tinha guardado só para ele. Provavelmente também não teria escrito o discurso que faria na hora do brinde, em que diria a ele que todas as vezes que disse que não queria ter uma família, filhos ou casamento era uma reles tentativa de mentir para ela mesma que não precisava de ninguém, mas a prova de que era só dele que ela precisava era que ali, na frente de todas as pessoas que gostava e com quem se importava ela queria dizer que fora só quando o vira pela primeira vez que começara a pensar que poderia ser forte o suficiente para dividir-se e entregar-se a alguém de verdade, e havia dito a isso às desconhecidas que sentavam ao seu lado.
Poderia ter feito menos planos, escrito uma quantidade menor de cartas que não deveriam para ser entregues até completarem 50 anos de relacionamento, e que para que chegassem inteiras até lá estava guardando tudo em uma pasta, junto com as fotos que roubara dele e que ilustravam o dia-a-dia que ela acreditava ser a única coisa que desejara até então.
Provavelmente teria se submetido menos aos seus caprichos e não teria deixado de ser a Senhorita-sem-coração propagada por alguns para se tornar, gradualmente, só mais uma garota apaixonada perdidamente por alguém que todos consideravam médio, até que ela abria a boca para contar todas as maravilhas que a fazia enxergar, e então se tornava um príncipe dono de um fusca-azul-calcinha e com um sorriso, que, de tão secreto, só ela conhecia.
Teria deixado também de não odiar cachorros (só por que ele gostava), de aceitar assitir filmes infantis, de ação, dublados ou qualquer idiotisse do tipo, mesmo tendo batido o pé desde os 14 anos para não ser obrigada mais a assitir essas bobagens, só porque era o que ele considerava um filme assistivel.
Deixaria também de aprender a mexer na wikipédia só para impressioná-lo, de ler sobre linux e cultura internética para fazê-lo sorrir e de fingir que gostava de vê-lo programando, só porque um dia ele dissera que seu sonho era tê-la do lado enquanto fazia isso.
Teria aceitado um número menor de ofensas da sua família e da família dele, teria virado as costas de maneira imperiosa e para sempre no dia em que ele ousara ser agressivo e não teria, nunca, aceitado assistir um filme da disney, dublado e com personagens idiotas só para poder segurar a mão dele, ignorar completamente o que poderia estar passando na tela e passar 1 hora e 45 minutos repetindo mentalmente a mesma ladainha de "Por favor, meu deus, que dessa vez a gente dê certo, que eu seja menos ciumenta, que ele seja menos possessivo, que eu saiba dividir o meu tempo para que eu sempre possa vê-lo sorrindo, que eu não pense nunca que ele é bobo porque chora na minha frente que ele nunca pense que eu sou feia, que ele nunca se apaixone por outra pessoa porque se nós nos separarmos eu não terei mais nada a dar pra qualquer outro, porque todos os meus desejos, planos e todo o amor que eu tenho, tudo isso é dele, que ele nunca repita de ano na faculdade, que eu nunca levante a voz pra ele, que a gente nunca mais brigue, que todos os dias possam ser perfeitos e que nós resolvamos qualquer desentendimento muito rápido para que eu possa pular no abraço dele e dar um beijo de reconciliação porque é quando nos reconciliamos que ele sorri com o solhos daquele jeito que ele faz e que faz com que eu acredite que ele é tudo que eu quis pra mim, que a gente dê certo, que eu seja menos ciumenta e blábláblá".
Não teria adquirido o hábito de entrar na capela da faculdade só para ajoelhar e falar, meio sem jeito e todos os dias, para o deus que deveria estar ali que, por favor, sempre os mantivesse juntos porque ela não suportaria não saber se ele estava se alimentando bem, dirigindo sempre sóbrio e usando roupa de frio quando o inverno chegasse, estivesse escovando os dentes, cuidando das unhas e comendo menos manteiga, por que ela sabia que ele ia acabar tendo um infarto de tanta fritura que ele come.
Não estaria esperando o Dia dos namorados para comprar um par de sapatos novos porque os dele estavam verdes ao invés de pretos e que o inverno chegasse logo para que comprasse um outro tricô, afinal, ele havia perdido o lindo suéter que custara todo o vale do dia 1º e ele não tinha muitas roupas de frio.
Deixaria de pensar que em 20 anos estaria morando numa casa com jardim, usando um lindo tricô que ela mesmo teria feito e passaria os dias escrevendo e traduzindo poesia para que pudesse cuidar da casa grande e cheia de crianças e um casal de labradores na qual ele chegaria todos os dias, faria o jantar para toda aquela gente, e que sorrindo colocaríam as crianças para dormir o mais rápido possível para que pudessem arrancar as roupas e entregarem-se um para o outro naquele amor desenfreado e desajeitado que sempre causava acidentes físicos,e que caindo da cama e escorregando pela parede em que ele insistia para que ela se apoiasse, explodissem um tampando a boca do outro para que as crianças não ouvissem o quão felizes eles poderiam ser mesmo depois de tanto tempo juntos.
Se não tivesse feito isso, talvez não estivesse catando os pedaços do que sobrou quando o conto-de-fadas chegara a o fim entre choro de um, alívio de outro e uma tristeza que, dessa vez, por mais que os planos fossem extremamente específicos quanto a isso, não poderiam mais ser divididos com ele, como todo o resto.